domingo, 14 de março de 2010

CARTA ABERTA AO MEU IRMÃO "MENOS VÉIO"!



Prezado mano "menos véio" Alan de Melo (Mello?) Veronezi(si?)


Nesta vida terrena de egoísmo e hipocrisia, muita coisa precisa ser dita principalmente àqueles que foram vitimas do obscurantismo de um regime social (o neoliberal capitalista) que apagou adredemente da história brasileira mais de duas décadas de fatos sociais de relevante discernimento às gerações futuras. Todavia, esta é uma colocação genérica que tem muito a ver com o que vou lhes relatar, já que tudo está interligado, tanto no plano material como no espiritual. O que menciono de forma genérica tem muito a ver com a história familiar, pois quem não conhece o passado, não tem condições de se orientar no presente e mais ainda no futuro.
Quando se fala em vida abastada e riqueza materiais, “muitos” dão a entender que “este é o valor maior deste mundo”, todavia os que não conseguiram acumular nada foram desidiosos nas suas tarefas sociais ou no trabalho ou não foram inteligente o suficiente para ter meios a uma sobrevivência digna. Sabemos que isto não é verdade, pois tudo é relativo e não podemos julgar desta forma, já que temos milhões de humildes pessoas trabalhando honesta e incansavelmente com abomináveis salários morrendo desamparadas. Outras que chegaram a ter razoáveis condições com “muita garra” através de seu trabalho, todavia perderam tudo, em face das “vicissitudes da vida adredemente preparadas”, como foi o caso de nossos genitores.
Por isso, é lamentável que “forças terrenas”
[1] ainda presas só aos interesses materiais e/ou de “levar vantagens em tudo”[2] usem de todos os meios (lícitos, ilícitos e/ou imorais) para apagar os verdadeiros fatos da história de um povo. Assim, ao apagar da história de um país fatos relevantes, uma e/ou mais gerações passam a não ter referencial para julgar criticamente vários acontecimentos.
Você sabia, p.ex., que os ex-presidentes João Belchior Marques Goulart e Juscelino Kubistchek de Oliveira foram alijados do Poder e que a "deposição" de Getúlio Vargas foi gestada pelo Sr. Carlos Eduardo Werneck de Lacerda durante anos que culminou com a farsa do assassinato do Ten. Vaz na R. Toneleros, pela Operação Condor do Regime Militar que se instalou simultaneamente nos países latino-americanos tais como Brasil, Argentina, Paraguai, Chile etc., todos financiados pelos EUA
[3] através da CIA, como ainda o fazem livremente com a Colômbia de Uribe e tentam fazê-lo com a Venezuela, mas é rechaçado pelo Governo de Hugo Chaves. Veja a única TV que tem interesse em veicular os fatos sem tendências! Qual é? A TV Cultura é claro!
Mas, deixemos de lado esta questão que é outra faceta maldosa do modelo neoliberal capitalista, vez que este não é bem o foco da questão. Ora, se 90% da população brasileira na faixa de nossa idade não conhece a história verdadeira sobre os últimos cinqüenta anos de nosso país, logo concluiremos que os nossos filhos e netos não conhecem absolutamente nada.
O que vou lhe relatar, todavia, é a questão FUNDIÁRIA de um passado bem recente de nosso país, quando nosso avô CLEMENTINO JOÃO DE MELLO chegou ainda jovem do sul do Estado de São Paulo para realizar, com seu próprio pecúlio, uma vida de agricultor e sobre tudo de trabalhador como sempre o foi. Dos netos do Seo Clementino eu fui o único que morei com ele e o acompanhei com percepção o sofrimento daquele homem sertanejo, porém sensível, que não tinha ninguém ao seu lado, nem mesmo os próprios filhos, dos quais um se destacava, não para ajudá-lo, mas para desestimulá-lo de sua luta embora audaciosa, porém justa e principalmente honesta em princípios.
A necessidade lhe fazer este relato, foi quando, no Cemitério da Água Verde, no funeral do meu sobrinho, você “demonstrou desconhecimento” de certos fatos sobre “as terras brasileiras” que marcaram profundamente a vida de nossa família como um todo.
Vou contar a vida de nosso avô Clementino em duas fases, a partir de quando eu dele me aproximei, fui morar em sua companhia e passei a sentir em minh’alma sua paixão pelo pedaço de chão que adotara para sua morada. Foi através desta aproximação que passei a amar aquele velho ser humano (nosso avô) que tinha veneração por sua família. O Seo Clementino só não dava a vida a seus filhos e netos porque era “contra a lei de Deus”, pois acompanhava a todos até maioridade com a maior dedicação, dando aos rapazes na maioridade, um caminhão novo para o inicio de sua vida profissional; para as moças (mulheres), no casamento, uma máquina de costura das melhores (Singer), com o que muitas até se insurgiam porque achavam que o “velho Seo Clementino” tinha que fazer isto também com os próprios genros. Mas o Seo Clementino não se esquecia de ninguém, tanto que das suas terras fornecia o que produzia de melhor, desde leite e carne bovina e suína, cereais, frutas etc., primeiro para sua família, para depois vender o que realmente sobrava. Fui testemunha de um comovente infortúnio com nosso querido avô. Estava eu pousando em sua casa de chácara, quando por volta das 04h ou 05 da madrugada, pois levantavam mui cedo, quando ouvi o Vô Clementino a gritar pelo nome do filho Maurício. Maurício venha logo e traga a cartucheira! Levantei junto com ele e fui ter ao Vô Clementino, quando o vi chorando abraçado com “Vaquinha Bolacha”, da raça Jersey (16 litros de leite diários) completamente inerte no meio do curral. Uma cobra “urutu-cruzeiro” de bom porte havia picado-a na pata direita traseira, quando logo a seguir o tio Maurício a localizou debaixo de um paiol anexo e com dois tiro de cartucheira estraçalhou-a. O Vô Clementino pediu ao tio Maurício que a enterrasse com todo o carinho o animal que ele tanto amava.
O que vou lhe relatar poderá servir para sua reflexão, caso seja de seu interesse, e/ou poderá existir algum neto e/ou bisnetos que venham a se interessar pela vida de seus antepassados.

Primeira Fase

O jovem Clementino no começo do Século XX, por volta de 1905, chega da região de Fartura (sul de São Paulo), onde seu pai Antonio Barbosa, português de nascimento, dadas as suas origens e amizades com os homens do Império, recebeu do Imperador Dom Pedro II, imensas glebas de terras, a maioria tituladas como “devolutas”, já que o Paraná era um jovem Estado autônomo desmembrado do Estado de São Paulo
[4].
O jovem Clementino tinha mais interesses nas ótimas terras do norte do Paraná para começar uma vida de agricultor livre, pois em sendo de uma família de numerosos membros (perto de 18 filhos) pediu a seu pai que “deferisse seu quinhão” para se aventurar em outras plagas.
Todavia, antes se casou com Gertrudes Maria Rosa (nossa avó), italiana de origens, e para lá foram cheios de sonhos e vontade férrea de vencer. Na verdade a vontade primeira do jovem Clementino era adentrar o norte novo e novíssimo todo coberto de mata subtropical (sertão) de raríssima beleza, mas dadas as condições de difícil acesso conformou-se em ficar no primeiro estágio no norte pioneiro.
Em chegando no Ribeirão do Meio (entre Jacarezinho e Ribeirão “Craro”/Claro) nosso querido e batalhador avô comprou uma boa gleba de terras, começou a trabalhar, onde também nasceram os primeiros filhos, inclusive a Palmira de Mello, nossa querida e batalhadora mãe, com seu nome alterado para Palmira Evangelista
[5] de Mello. Aliás, a respeito da família do Sr. Emílio Veronesi, também existiram fases, sendo no nosso caso duas, antes e depois de sua morte. Ribeirão do Meio hoje talvez nem mais exista, pois na verdade era uma região sem vila que pertencia a Ribeirão Claro, sem nenhum recurso, mas o jovem Clementino tinha que estar perto de um local que pudesse dar mais assistência a seus filhos que já crescia.
Assim sendo vendeu tudo que lhe pertencia no Ribeirão do Meio e veio a se instalar na recém cidade de Santo Antonio da Platina, onde nasceram os filhos Maurício, Alicio e Alice (tios). Nossa avó Gertrudes, como sempre, incansável nos serviços domésticos e cuidados com os filhos menores para ajudar seu marido na lavra da terra com os filhos maiores.
Pois bem, com os recursos que amealhou com a venda das terras e as economias comprou quase a metade do que é a região norte da hoje progressista cidade de Santo Antônio da Platina. Afirmo quase a metade, talvez até sem exagero, porque suas terras vinham até a antiga Cadeia Central que ficava na Rua Rui Barbosa a umas cinco quadras da nossa casa, sua divisa descia beirando as divisas das terras do compadre "Zé Lotero" (José Eleutério da Silva) e ia bater com o Ribeirão Boi Pintado e descendo ao Sul até o Rio das Bicas, onde um pouco mais ao sul possuía outra propriedade com mais ou menos 35 alqueires, além do Campo de Aviação, com mais 6,5 alqs.( alqueires e meio paulistas – 24.200 m2). Ao todo nosso avô devia possuir no perímetro urbano da cidade por volta de 60 alqueires paulistas, o que provocava muita pretensão das pessoas influentes da cidade, inclusive de pessoas da família. Mas a vida do “Seu Clementino” não permaneceu muito como agricultor na cidade, em especial logo que eclodiu a 2ª Grande Guerra Mundial, cujo evento trouxe-lhes muito desgosto.
            Na verdade nosso avô vivia praticamente de uma agricultura de subsistência, embora se esforçasse muito para produzir em larga escala para ter uma renda maior e ajudar os filhos que era muitos. Mas os meios de comunicação, a assistência ao agricultor e as estradas eram poucas e precárias, além das bravatas dos especuladores das poucas Multinacionais já presentes no país. Assim, p. ex., quando o Seu Clementino produzia muito milho, feijão e arroz o preço caia; como não tinha capacidade de armazenagem, das duas, ocorria uma alternativa; ou perdia por deterioração na roça ou nas tulhas ou vendia a preço vil aos “atravessadores”.
Mas, o Seu Clementino não desistia de sua missão de Agricultor e continuava assim mesmo com os prejuízos de uma agricultura precária e incerta como já imperava desde o Brasil colônia.
A “gota d’água”, no entanto, que esgotou a paciência do Seu Clementino, foi quando um dos filhos que já vinha obtendo relativo sucesso com a Distribuição de Bebidas da Antártica; uma “Bomba” e venda de gasolina clandestina
[6] sob a proteção velada dos amigos da oligarquia política que ainda manda nestes pais desde os tempos imperiais e o esforço de sua incansável esposa nas tarefas de casa e fabricação caseira de doces e salgados para as festas, casamentos e outros eventos da elite platinense.
Este seu filho com sua “autoridade de próspero homem” nos negócios, convenceu nosso pobre avô que apoiasse o Projeto norte-americano, com financiamento do Banco do Brasil na produção de hortelã-pimenta para resfriamento das turbinas dos precários aviões turbo-hélices em operações no Continente Europeu. Assim, o Seu Clementino lavrou e cobriu todas suas terras em 1945 de hortelã-pimenta com dinheiro emprestado daquele Banco, mediante hipoteca e aval do Compadre José Eleutério (o Zé Lotero!).
No entanto, o Seo Clementino  a contragosto concordou com aquela atemorizante empreitada mediante uma condição, já que vinha insatisfeito com os acontecimentos, e a morte em 1944 de nossa querida “Vó” Gertrudes
[7] aos 54 anos, quando passou a ter os olhos voltados para as fertilíssimas terras do norte novíssimo, mais precisamente na região do alto Rio Ivaí entre a Barra do Rio Corumbataí e os despojos arqueológicos de Vila Rica, nas quais os cafezais ao atingir cinco anos chegavam a três metros de altura com abundante produção de milho e feijão “entre as carreiras” sem nenhum adicionamento de fertilizante.
E qual era esta condição do velho Seo Clementino? Era de que se não obtivesse sucesso a cultura da hortelã, o mesmo entregaria as terras
[8] do plantio da hortelã ao seu compadre que pagaria o Banco; o sítio das Bicas venderia e o Campo da Aviação (6,5 alqs.) ficaria ainda sendo usado pela municipalidade até a sua desativação, quando voltaria à sua propriedade, já o uso do mesmo era mediante “Comodato”. A área do Campo de Aviação sendo legitima propriedade do avô Clementino, quando desativado, não sei por que “cargas d’água” não voltou para a posse e propriedade dos herdeiros do Seu Clementino, já que o mesmo à época já estava falecido (1962).
Pois bem, com o dinheiro da venda do sítio das “Bicas” e mais algumas economias, sob protestos de uns e em companhia de outros filhos (Antonio, Cecílio, Maurício e Alicio ainda jovens), parte Seo Clementino para nova aventura, já que se desiludira com o sonho de ser próspero agricultor nas cercanias da cidade! Convidou a viúva D. Rita baiana (mão da Rubão e do Hélio), a qual aceitou, para ir morar em sua companhia nas terras de seus verdadeiros sonhos (a terra prometida).

2ª fase – Patrimônio do Ivaí – “Porto Luar” e Barra do Corumbataí

Através das precárias notícias dos Jornais da época e informações de poucos amigos que tinha foi-lhe recomendado ir a Curitiba (Capital) para falar com as autoridades do Governo, através do antigo DGTC (Departamento de Geografia, Terras e Cartografia), chefiado à época por um tal Anfrísio Siqueira (ex-presidente da Boca Maldita), através do qual conseguiria mediante “Titulação Estatal” das “terras devolutas” naquelas região, muitas das quais estavam “nas mãos” da conhecida COMPANHIA DE MELHORAMENTOS DO NORTE DO PARANÁ, de origem inglesa, com o “assessoramento” e no exercício de “ponta de lança” de dois irmãos LÉO E BRAULIO BARBOSA FERRAZ que os conheci pessoalmente quando em companhia de meu avô e que hoje é nome (imagine!) de uma cidade vizinha a cidade de Campo Mourão. Nosso avô Clementino chegou com a titulação de duas grandes glebas daquela região; a primeira de 1.200 (hum mil e duzentos) alqueires paulistas às margens do Rio da Bulha com o Rio Ivaí, onde fixou sua morada com os filhos. Todavia, os filhos (Antonio, Cecílio, Mauricio e Alicio) que não tinham muita vocação para agricultores ficaram no Vilarejo do Patrimônio do Ivaí extraindo e comercializando as melhores espécies de madeiras brutas (em toras) lá existentes, como cedro, peroba, canela, pau-óleo etc. nos caminhões que adentravam às precárias estradas e picadas na busca de madeiras nobres. Eu presenciei tudo isso com os olhos de uma criança de onze anos, porém curiosa e atenta aos acontecimentos.
Ao fixar-se às margens do Rio da Bulha, aonde só se chegaria através de picadas e lombo de cavalos, dista 35 km da Vila do Patrimônio, com as “Cartas de Titulação” na mão assinadas pelo então Governador Moisés Lupion localizou suas terras. Nesta gleba chamada a “de baixo” com 1.200 alqueires de altíssima qualidade passou a derrubada das matas para cultivo de cereais e criação de gado que era a sua vocação primeira. Numa de suas vindas a Santo Antonio, em 1952, estava eu desestimulado com os estudos escolares, aceitei seu convite para morar com ele, com a condição de me desse um casal de potros e rezes, com quais deveria também iniciar minha vida de ruralista.
D. Palmira ficou uma fera comigo em face da desistência dos estudos, já que tinha preparado tudo com sua amiga Professora Zenaide (filha do Gráfico Antonio Bernardi) para me preparar para os Exames de Admissão ao Ginásio, já que o ingresso era difícil e concorrido exigindo no mínimo seis meses intensivo de preparo. Agüentei apenas oito meses na mata fechada do Sertão quando gastei todas as latas de pólvora e chumbos nas andanças de caças e pesca nas proximidades, já que as espécies eram abundantes e eu tinha apenas 10 anos. Voltei no mesmo ano de 1952, indo no dorso de uma única égua que sabia o caminho até a Vila, percorrendo os 35 kms, quando encontrei cobras, animais de pelo diversos e pássaros em abundância, para depois seguir viagem em pequenos ônibus (jardineiras) passando por Bom Sucesso, Jandaia do Sul até chegar em Apucarana onde embarquei na Estação Ferroviária e vim até Cambará, para novamente embarcar numa jardineira e chegar a nossa cidade. Levei dois dias de viagem, já que tive que pousar em Jandaia do Sul, na casa do Seo Calixto sogro do tio Maurício (pai da tia Lazinha).
Fui três vezes a passeio às terras de meu avô, quando numa delas, conhecemos melhor toda a região e empreendemos uma viagem a cavalo por mais de 30 kms até o “gleba de cima” (800 alqueires) às margens do Rio Corumbataí. De lá fomos embrenhando pelas matas e picadas, pois não existiam estradas, até os despojos arqueológicos de Vila Rica dos Padres Jesuítas. Foi uma experiência incrível, pois deparamos com as ruínas da Vila fundada pelos Jesuítas e como ainda não era controlado como Patrimônio Histórico, tivemos oportunidade de pegar alguns peças de rara beleza.
Da volta de minha estada por oito meses na companhia de meu avô, reiniciei meus estudos, concluindo o Ginásio em 1956 e em dezembro do mesmo ano, quando ainda trabalhava no Banco Comercial do Paraná S/A., por um desentendimento com a Contadora Sra. Augusta Nunes, decidi vir estudar em Curitiba, quando cheguei em 06 de dezembro de 1956, já que lá já estavam os outros irmãos Emílio (Emilinho) e João (Joãozinho). No ano seguinte já me matriculei na Escola de Comércio Anexa à Faculdade de Direito da UFPR onde me diplomei como Contador em 1957.
Lamentei e sofri muito já que deixara p’ra traz minha mãe viúva com apenas dois irmãos menores. O Alan a quem dirijo este relato (com 10 anos) e o Swami com apenas sete anos. Mas nossa mãe não se abateu e foi a primeira a me estimular. Disse-me! Se é para seu bem e progresso, vá meu filho, mas muito cuidado com as companhias! Veja que você é ainda muito jovem e pode ser influenciado para o mau caminho! Ouvi aquelas as palavras de minha mãe como se fora um turbilhão de conselhos dilacerando minha cabeça. Abracei-a, tranqüilizei-a e fui embora para Curitiba com o pedido e apoio do mano Emílio ao Sr. Merlino Prestes que o tinha em ótima estima com se fora um filho. Passaram-se os anos e em 1961 quando trabalhava no Banco Hipotecário Lar Brasileiro soube que nosso avô Clementino andava muito mal de saúde, quando decidi, a pedido de minha mãe, visitá-lo ainda lá em suas terras.
Apenas dez anos depois vi tudo devastado! Não existiam mais as belas matas e nem tampouco a fauna e a flora existente, mas apenas derrubadas aleatórias, queimadas por toda parte, rios estéreis e assoreados, estradas precárias disseminadas pelos municípios e o pior de tudo uma especulação imobiliária sem precedentes. As terras passaram a valer entre R$ 35.000 a R$ 50.000 à época e hoje dizem que estão na casa dos um milhão de reais.
Só por intermédio de alguns amigos e de pessoas da família ficara sabendo das notícias de meu avô e de D. Rita baiana (sua companheira), já os primos, filhos e tios que lá ficaram se lançaram mundo afora, indo uns para São Paulo, Curitiba e outras partes do país.
O único neto do Seo Clementino que teria condições de relatar bem a vida do avô matriarcal seria eu, mesmo que do lado dos Veronesi (De Verona, It.) já que os “Mellos” não estavam presentes por uma série de circunstâncias. Senão não, vejamos.
Tio Antonio (mais velho dos irmãos) ficara por volta de 2 a 3 anos no sertão paranaense, voltou para São Paulo onde sua esposa tinha raízes e por lá ficaram e nunca mais se soube de suas vidas.
Tio Paulino, esposa Clementina e filhos em 1949 partiram para Ponta Grossa e de lá para Curitiba e por lá ficaram, criaram seus filhos (nossos primos), dos quais uma foi para EUA com marido e filhos e lá permanecem. De vez em quando iam a passeio às terras do avô Clementino, sem que de lá tivessem notícias.
Tios João, Rita e Cirilo e esposas(os) ficaram em Santo Antonio da Platina, os quais muito poucas notícias tinham sobre a vida do pai Clementino e não conheciam suas terras, a não ser quando foram buscá-lo às vésperas de sua morte.
Os tios Maurício, esposa e filhos e Alicio, ainda solteiro, saíram das terras direto para ir morar em Curitiba.
Nosso querido avô Clementino permaneceu por 16 anos nas terras de seu sonho. Na “gleba de baixo”, já com a derrubada de 40% da mata, tinha praticamente uma Fazenda totalmente formada, faltando apenas a marcação das divisas definitivas. Possuía cultura de café, milho, feijão arroz, tudo praticamente sem a necessidade de fertilizante, já que as terras erram de ótima qualidade, mas se aplicava apenas alguns “corretivos químicos” para neutralizar os componentes que possuíam em excesso. A “Gleba de cima” ainda estava só em processo de derrubada de madeiras, sem a possibilidade de cultura agrícola, já que seu acesso era difícil pela ausência de estrada.
Por volta de 1955 começaram a aparecer os primeiros “grileiros” a mando dos dois irmãos “Léo e Bráulio” que por sua vez representavam os interesses da CIA DE TERRAS dos ingleses.
Chegavam de mansinho conversando com um posseiro aqui outro ali, indagando mansinho (como mineiro) quem tinha Titulo do Governo, quem não tinha; checando suas áreas e confrontações para depois montarem suas “ciladas”. Com a situação completa das áreas “nas mãos” vinham com as mais variadas propostas. Quando sabiam da firmeza e domínio de sua propriedade como no caso de nosso Avô, a proposta primeira era de compra, todavia a preços vis. Na recusa, insistiam e persistiam por várias vezes, montando inclusive situações constrangedoras, como invasão de divisas, roubos de gado e morte de meeiros e peões ajudantes nas terras, tudo para precipitar a retirada dos legítimos donos (e posseiros) das terras. Valia tudo, inclusive o mais comum era a montagem de “Escrituras Frias” (primeiro, segundo, terceiros andares) com a cumplicidade de Cartórios criminosos e desonestos, muito comum à época na região do norte do Paraná.
Presenciei uma ou duas vezes homens a mando dos citados irmãos ir buscar meu avô para “tentar entendimentos” com os mesmos. Nosso avô sempre se recusara, pois com a “Titulação de Terras Devolutas” com as suas respectivas confrontações achava impossível o Estado do Paraná certificar terras de legitima propriedade de outros numa região de mata fechada e completamente inacessível. Meu Avô dizia com muita evidência que para se ter como legitima uma propriedade com Escritura lavrada em Cartório idôneo com as medições e confrontações “in loco” só por “Obra do Espírito Santo”.
Assim ficamos sabendo que em 1955 sofreu várias incursões em suas terras com ameaças de morte e queima dos casebres de seus meeiros e peões, dando sempre o troco aos capangas a “mãos armadas” de carabinas e cartucheiras de “chumbo grosso”. Nosso avô Clementino sempre foi um homem destemido e valente nas situações intimidante, quanto o era generoso e humano com as pessoas humildes e amigas. Tanto que quando os filhos foram buscá-lo em Porto Luar do Ivaí nosso querido avô estava entrincheirado com os seus “meeiros” tentando resistir às investidas dos “capangas do grileiros” que ainda envergonham nosso querido solo pátrio.
Sabíamos que a cobiça dos grileiros era progressiva e ameaçadora, mormente quando já perdiam as esperanças de um desenlace e seu gosto.
Todavia, Seo Clementino se mantinha inflexível e inabalável, tanto que veio várias vezes a Curitiba e contratou um dos melhores Advogados da época, o Dr. João de Barros, com escritório à Rua 15 de Novembro, em cima da antiga Lojas Nasser. Numa dessas vindas sua a Curitiba, acompanhei-o até o Escritório do famoso Advogado.
Com as “montagens escriturais” em mãos; as investidas agressivas e rotineiras a um homem com mais de 70 anos e o apoio velado de “autoridades”, muitas das quais ainda mantidas na corrupção, e a “falta de eficácia” do famoso Advogado, restou-lhes apenas “hastear a bandeira branca” e assinar o “armistício”.
Nosso avô se retirou das terras, entregando-as de “mãos beijadas” com todas as benfeitorias (derrubadas, terras lavradas, pequenas estradas internas, casas na Sede e casebres dos meeiros e peões, paióis etc.), as quais foram apenas compensadas pelo direito a um de seus filhos (Cecílio) de usufruir o “Comodato” de 35 alqueires por 20 anos.
Se este nosso “Gigante Adormecido” fosse realmente dotado de homens sérios e de moral ilibada, poderíamos ser hoje todos, filhos, netos e até bisnetos, se quisessem, pequenos e sérios agricultores em terras lavradas com suor e sangue do paladino e bondoso avô CLEMENTINO JOÃO DE MELLO.
Dos milhões de quilômetros quadrados deste “bendito território brasileiro”, mais de 90% delas foram “esbulhos” e ainda permanecem improdutivas nos termos da CF e das Leis, com a finalidade só de especulação (valorização) imobiliária. Se não acreditam os ingênuos ou mal-intencionados que voem baixo sobre “território nacional”, como eu o fiz, e verão que nelas não existem nenhum tipo de cultura; o solo é seco pela ausência de húmus e os rios se encontram sem as matas ciliares a espera que um dia o progresso chegue por lá.
Por isso, se me perguntarem se eu sou a favor dos “SEM TERRAS” digo que sim! E muito. Inclusive com a liderança destemida do STÉDILE! Pois foram milhões de pessoas humildes que foram injustamente expulsas de suas posses este país afora, pela ausência de Reforma Agrária justa e correta. Por isto, o LAVRADOR CLEMENTINO por “ordem de alienígenas” sob o conluio dos “grileiros e mandantes”, foi expulso do torrão onde LAVRAVA A TERRA com suor e sangue! Lamentavelmente isso não acontece em “nosso país” só no campo! È só você atentar para os milhões de pessoas “Sem teto” que vagueiam pelas urbes e as periferias da cidade.
Aí, quando aparece um “Verdadeiro Líder” para defendê-los, os mesmos que estão interessados em “levar vantagens em tudo” o acusam de “baderneiro” e/ou de um nome que nem mais existe no dicionário sociológico: o comunista! E você sabe por que o povo acredita nisto, porque a “Mídia” “faz a cabeça” de um povo sem estudos, sem cultura e muito menos de informações honestas.
A história de nosso avô Clementino e a fundiária do Paraná confunde-se ou se assemelha com a muitas regiões de nosso Brasil, como o foram o do Mato Grosso (norte), Rondônia e agora na Amazônia que, nos tempos atuais, ainda mantém as condições sociais injustas de um modelo social (o neoliberal) que só envergonha e enluta um país que se considera Democrático de Pleno Direito. Este é o país que você tanto adora!? E por que não eu?

“ENFIM, COM A QUALIDADE MORAL E ÉTICA DO POVO BRASILEIRO, A HISTÓRIA FUNDIÁRIA DO BRASIL É, SEMPRE FOI E SERÁ UM ESBULHO SÓ! BOM PARA TODOS AQUELES QUE VIVEM DE ESPECULAÇÕES, COMO OS MICRÓBIOS VIVEM DE MATÉRIAS PODRES”

Colombo, em 10 de janeiro de 2009 (ano da graça de meus 70 anos).

Assinado: seu mano mais véio.

Ivan Veronesi (de Jesus)
Filho de Emílio Veronesi e de Palmira de Mello Veronesi.


[1] Bem conhecidas para quem realmente quer entender.
[2] Esta é a conhecida “Lei do Gerson”.
[3] Este país reserva montanhas de “dólares clandestinos” para derrubadas Governos não alinhados.
[4] O Paraná era parte da província de São Paulo, da qual se desmembraria apenas em 1853. Nessa época, a produção de café começou a ganhar destaque. O rápido desenvolvimento da cultura cafeeira atraiu milhares de imigrantes das províncias do Sul, do Sudeste e do Nordeste do país.
[5] Este nome foi inventado pelo nosso tio João “Clementino” de Mello, para substituir o “Clementino” que era seu nome verdadeiro. Como o mesmo era o “líder da família” alguns irmãos passaram também a assiná-lo.
[6] Após a adesão do Brasil aos Aliados na 2ª Guerra, a gasolina, 100% importada, era rigidamente controlada. 
 [7] Aqui eu faço um pequeno reparo. Quando da morte de nossa Avó Gertudres Maria Rosa, abriu-se a sucessão dos bens (herança) de 50% para os filhos que confesso talvez tenha sido um dos motivos da dissensão entre o Seo Clementino e os filhos, já que o Inventariante talvez tenha sido o tio João Evangelista de Mello.
[8] As terras tinham o valor bem acima do empréstimo do Banco do Brasil.

Um comentário:

  1. Caro Ivan.
    Espero que seja um daqueles que mantém sempre em atividade o seu blog, pois estou me utilizando desse meio para tentar contato com o seu "irmão menos véio". Não estou certo de que vai se lembrar de quem sou, pois tanto Alan quanto eu e Swami éramos meninos e você e seus outro irmãos já eram "homens feitos" morando na Marechal, naquela casa de fundos, ao lado da panificadora.
    Sou, ou fui, o garoto do sobrado 868, a casa cujo quintal repleto de pereiras era o paraíso dos amigos, dentre os quais Alan e Neném.
    Gostaria de saber de ambos e se possível uma forma de me comunicar com o "menos véio", responsável direto por meu primeiro emprego na antiga Casa Universal.
    Pode fazer contato pelo mail marcosarnogueira@gmail.com
    Abraço e parabéns por seu blog

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